Foto: Paulo Pinto/Agência BrasilGeral

A história pouco contada do Carnaval

A celebração brasileira começa com travessuras públicas e termina no maior espetáculo estético do mundo

11/02/2026por Revista Visual

Plumas, pedrarias, brilho, pele dourada sob o sol de fevereiro, produções pensadas com meses de antecedência e uma estética que hoje corre o mundo. O Carnaval brasileiro se consolidou como um dos maiores espetáculos visuais do planeta, que virou uma mistura de arte, moda, corpo e celebração coletiva que atrai milhões de turistas todos os anos.

Mas por trás de toda essa estética que conhecemos hoje, existe uma origem pouco lembrada. Antes dos camarotes, das avenidas e dos trios elétricos, o Carnaval no Brasil era uma grande sucessão de travessuras públicas.

A palavra “Carnaval” vem do latim carnelevamen, que significa “adeus à carne”, em referência ao período que antecede a Quaresma cristã. Desde a sua origem, a festa sempre representou a quebra temporária da ordem social, um momento em que as regras se afrouxam e o riso substitui a rigidez da rotina.

Foi nesse espírito que, ainda no período colonial, os portugueses trouxeram para o Brasil uma prática carnavalesca bastante peculiar: o entrudo. Segundo o artigo A origem do Carnaval, da Universidade Federal do Recôncavo da Bahia (UFRB), muitos dos blocos de rua que conhecemos hoje têm suas raízes justamente nesses entrudos portugueses.

E é aqui que a história ganha contornos quase inacreditáveis. O entrudo consistia, basicamente, em pregar peças uns nos outros. Valia jogar água, farinha, pó, lama e, em situações mais extremas, até substâncias nada agradáveis, como dejetos humanos. As ruas se transformavam em um grande espaço de travessura coletiva.

Esse foi, de fato, o primeiro formato do Carnaval brasileiro. O Carnaval começava sujo, caótico e absolutamente espontâneo.

Durante décadas, essa foi a principal forma de celebração. Até que, na segunda metade do século XIX, algo começa a mudar. Influenciadas pelos bailes de máscaras venezianos, as elites brasileiras passaram a adotar um novo modelo de Carnaval: salões iluminados, máscaras sofisticadas, tecidos nobres, música, dança e exibição social.

Enquanto isso, o entrudo passa a ser visto como violento, deselegante e incompatível com os novos padrões de civilidade que se desejava para as cidades. A prática chegou a ser oficialmente proibida no Rio de Janeiro, em 1853, e no Recife, em 1863. Ainda assim, a tradição popular resistiu por muito tempo.

Para se adaptar às tentativas de disciplinamento policial, as camadas populares transformaram suas práticas carnavalescas. Surgem então os cordões e os ranchos,  grupos que saíam às ruas acompanhando carros decorados, em desfiles que lembravam procissões, mas carregavam expressões genuínas da cultura popular, como a capoeira, os tambores e a música.

Esses cordões e ranchos evoluíram ao longo dos anos, incorporando cada vez mais elementos da identidade brasileira. As marchinhas e, mais tarde, o samba passam a integrar as festividades no século XX, como também aponta o artigo da UFRB.

E é justamente dessa tensão entre o popular e o sofisticado que nasce o Carnaval que conhecemos hoje.